É possível um confronto sadio entre o ateísmo e o teísmo? É possível o embate civilizado entre estas duas correntes? Acreditamos que sim. O objetivo deste blogue é justamente promover tal debate, que cremos ser salutar.
(Edimburgo, 1726 – 1797)
Geólogo escocês, fundador da moderna concepção da evolução gradual da
crosta terrestre. Inicialmente estudou nas universidades de Edimburgo,
Paris e Leiden, formando-se em Medicina. Trabalhou como químico agrícola
e montou uma fábrica de cloreto de amônia cuja renda lhe proporcionou
tranquilidade financeira para dedicar-se à investigação de seu maior
interesse: a formação do planeta Terra. Rejeitou a teoria do
catastrofismo, muito popular em seu tempo, segundo a qual o planeta
teria sofrido transformações drásticas e não graduais. Os catastrofistas
acreditavam que somente um evento cataclísmico de grandes proporções
poderia alterar a formação da Terra, mas Hutton formulou o princípio da
uniformidade, de acordo com o qual as forças que atuam hoje sobre o
planeta (como o vulcanismo e a erosão) sempre atuaram de uma mesma
maneira, numa mesma média de frequência, velocidade e ritmo durante
longos períodos de tempo. Isso contrariava os conservadores, que
postulavam a idade da Terra em torno de 6 mil anos, de acordo com os
relatos bíblicos, e por esse motivo Hutton foi combatido por alguns de
seus contemporâneos. Hoje conhecido como o Pai da Geologia, reuniu suas
ideias no livro Teoria da Terra, publicado em 1785.
• Hutton
viveu num tempo em que a Revolução Francesa estava em seu auge. A
Inglaterra sofria fortes reações conservadoras, e qualquer ideia nova
parecia perigosa. Por isso, sua obra principal só foi reconhecida e
popularizada meio século depois de sua morte.
REFLETINDO
SOBRE O FLORESCIMENTO DA LAICIDADE ESPONTÂNEA
Octavio da Cunha Botelho
A Era Contemporânea tem
experimentado um crescimento do secularismo sem precedente na história, de tal
maneira que os povos antigos certamente não acreditariam que, um dia, tamanha
laicidade florescesse. No passado, diferente de hoje, quando a população era
educada para abraçar a religião, bem como, ao se desencantar ou desacreditar de
uma tradição religiosa, a opção era sempre se converter para outra ou, quando
um povo era invadido, o mesmo era forçado a aceitar a religião do dominante, de
modo que a população nunca voltava as costas para a religiosidade. A opção
laica era apenas a decisão de tão poucos indivíduos que nem sequer eram bem
notados, em meio à grande maioria religiosa, e quando eram percebidos, os ateus
eram discriminados e estigmatizados como cruéis e imorais.
O fenômeno acelerou, sobretudo, a
partir do início do século XX, para enfim encontrar, no seu fim e no início do
século XXI, algumas sociedades até ameaçadas de se tornarem totalmente
seculares, em vista do crescente aumento de ateus nas últimas décadas. Porém, a
peculiaridade desta recente modalidade de secularismo é seu caráter espontâneo.
À medida que o século XX avançava e o mundo assistia a conversão de muitas
nações ao Comunismo, ao ponto de se formarem grandes blocos, tais como a União
Soviética e a Yugoslávia, as primeiras sociedades com ideologia ateísta na
história, bem como as revoluções comunistas na China e em Cuba, os
acontecimentos conduziam para o sentido de que o Comunismo dominaria o mundo e
que a religião estaria com os dias contados, uma vez que, para os seus adeptos,
“numa sociedade comunista, a religião não tem utilidade”. Alguns pensavam que o
Comunismo substituiria a religião. Ou, como proclamavam alguns marxistas da
época: “o comunismo é o verdadeiro cristianismo”. Até hoje ainda é possível
encontrar autores que entendem que o Comunismo é uma forma de religião.
Por outro lado, os cristãos se
horrorizavam com a expansão do Comunismo pelo mundo, bem como, ao mesmo tempo,
lhe dirigiam ferozes críticas, prevendo trágicos desfechos para os seus
objetivos e anunciando o seu fim. No desespero para conter a sua influência, os
padres fizeram de tudo, até inventaram e alardearam os tais Três Segredos de
Fátima, cujo segundo segredo profetizava o arrependimento da Rússia e seu
futuro retorno ao Cristianismo. Estes segredos foram revelados durante as supostas
aparições da Virgem Maria para três crianças (Lúcia, Francisco e Jacinta), nos
arredores da cidade de Fátima, Portugal, em 1917. O terceiro segredo, o qual
ficou guardado com Lúcia por muitos anos, só foi revelado no ano 2000, pelo
papa João Paulo II e trata do problema do ateísmo no mundo. Bem, o Comunismo
acabou e a Rússia se transformou em um país democrático com liberdade
religiosa, até os Hare Krishnas se
infiltraram lá. No entanto, após a queda, a população russa parece que não
sentiu saudades do Cristianismo, pois recente pesquisa do Instituto Gallup
revelou que apenas 33% dos russos consideram a religião importante em suas
vidas. Enfim, a Rússia abandonou o Comunismo, mas não abraçou de volta o
Cristianismo com tanto entusiasmo, ou seja, parece que muitos russos se
sentiram bem com a ausência da fé cristã. Afinal, o segundo segredo de Fátima
dizia que a Rússia iria se arrepender do Comunismo e se converter de volta ao
Cristianismo, só que, até agora, a profecia não foi cabalmentecumprida.
O Comunismo desmoronou e os cristãos
não se cansaram de apontar o seu fracasso como um exemplo de que “nenhuma
sociedade sobrevive sem deus”, o qual se transformou até em um refrão, de tanto
ser repetido. Até hoje é possível encontrar autores cristãos apontando o
exemplo, da primeira tentativa fracassada na história da construção de uma sociedade
laica, como uma lição, para que não seja repetida.
Agora, o curioso é que, simultâneo a
esta vanglória dos cristãos com o fracasso comunista, emergia paralelamente, na
mesma época do colapso, no final dos anos 1980, um novo formato de laicidade,
que sobrevive e cresce até hoje, ou seja, o secularismo nos países de melhor
qualidade de vida no mundo. De caráter inédito, esta é uma laicidade que não
foi formada a partir de uma ideologia formal ou da imposição de um regime
político, mas sim se caracteriza pelo ímpeto espontâneo da população. Diferente
do Comunismo, quando o secularismo era imposto pelo regime e pela ideologia, isto
é, de fora e de cima, e levado a cabo através da doutrinação comunista, a
laicidade espontânea, por sua vez, é resultado do contentamento da população
com a sua qualidade de vida, ou seja, parte de dentro do indivíduo e é opcional.
Atualmente, ela está presente e cresce nas sociedades que estão no topo do
ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (Suécia, Noruega, Dinamarca, Reino
Unido, Austrália, Japão, Holanda, Canadá, etc.), daí o desinteresse natural
pela religião.
Sendo assim, é curioso questionar
porque os cristãos, que tanto se vangloriaram do fracasso comunista, com tantos
discursos e escritos sobre o desmoronamento, bem como, antes disto, fizeram
tantas previsões e alardearam a derrocada do ateísmo comunista, são agora tão
silenciosos, em seus pronunciamentos, quanto a esta atual e florescente
modalidade de laicidade: o secularismo dos países de melhor qualidade de vida. E
quando, raramente tocam no assunto, tratam apenas do ateísmo em sociedades, com médio ou baixo desenvolvimento humano, que
ainda precisam da religião, aí fica fácil explicar a sua utilidade. Por
exemplo, confirmadamente, a Noruega é o país que se manteve mais vezes no topo
do IDH nos últimos anos, por isso é definida por alguns observadores como o
“paraíso na Terra”, a sua porcentagem atual de pessoa que declaram que a
religião não tem importância em suas vidas é de 78% e vem crescendo nas últimas
décadas, ou seja, uma sociedade que sente que, cada vez mais, precisa menos da
religião. Por que os religiosos não comentam sobre esta experiência? Assim, o
atual quadro global que mostra o crescimento do secularismo nos países de
melhor qualidade de vida e, em contrapartida, o crescimento da religião nos
países de pior qualidade de vida é um assunto que não está prioritariamente na
pauta dos religiosos. Pois, é embaraçoso discutir o fato de que, nestes países,
onde a vida é tão boa e feliz, a religião, ao invés de ser um consolo e uma
esperança de felicidade, ao contrário, é um estorvo cultural e social.
Então, será interessante refletir se
esta florescente laicidade, nos países de maior desenvolvimento humano, é prova
do fato de que, a partir do século passado, e mais acentuadamente no momento
atual, o fator qualidade de vida será
o termômetro que medirá a temperatura religiosa de uma sociedade, confirmando
assim o fato de que a religião, na presença do alto desenvolvimento humano, é
uma cultura viavelmente substituível. Em outras palavras, a religião não tem
utilidade nas sociedades com alta qualidade de vida. Ademais, será que, mesmo
com a piora na qualidade de vida de um ou alguns destes países que atualmente lideram
o ranking, fato que poderá, no futuro, transformá-los em sociedades religiosas
novamente, não fará que outros países se ergam, para então, se tornarem mais laicos,
provando assim que não é o país, mas sim a qualidade
de vida que determina o grau de religiosidade de uma nação. Enfim, o
diagnóstico atual parece ser, quanto menos desenvolvimento humano, mais
religião, quanto mais desenvolvimento humano, menos religião. Então, será que,
finalmente, foi confirmada a causa da necessidade da religião? Interessante
tema para se refletir.